Manifestações e vandalismo desafiam a democracia

Sonia Fleury

Uma pauta coletiva, envolvendo direitos cidadãos à saúde, educação, transporte e segurança de qualidade foi-se afunilando ao longo do tempo. Majoritariamente composta por jovens que nunca haviam participado de manifestações políticas, mobilizados por intermédio das redes sociais, uma multidão crescente e diversificada ocupou os espaços públicos e passou a vocalizar suas demandas, fenômeno que tem sido chamado de “a voz das ruas”.

Autoridades públicas e a mídia tentaram relativizar o potencial das manifestações, apresentando-as como movimentos inconsequentes de jovens de classe média alta, pouco afetada pela tarifa do transporte urbano, passando depois a desqualificá-los como atos de vandalismo e individualismo anárquico. Posteriormente, assistiram perplexos e atemorizados a essa insurgência epidêmica, contagiando novos grupos sociais, outras faixas etárias e que agregava à demanda inicial uma infinidade de reclamos em relação aos serviços públicos.

A perplexidade diante das manifestações mostrou a incapacidade das elites intuírem que a produção simbólica de uma sociedade de espetáculo poderia levar o povo a perceber que algo estava errado. Predominava até então o discurso que incensava os avanços do país onde todos pertencem à classe média, as instituições democráticas são sólidas, as favelas foram pacificadas, os megaeventos serão um grande sucesso atraindo investimentos internacionais.

O fio invisível que une todas as reivindicações e demandas é a necessidade de aprofundar a democracia, de tal forma que a cidadania se sinta respeitada pelas instituições governamentais, responsáveis por assegurar sua segurança e seus direitos a uma vida digna, na qual a polícia proteja os cidadãos, os parlamentares representem a vontade dos que os elegeram, o Executivo cumpra o programa para o qual foi eleito, dando prioridade à melhoria dos serviços públicos que atendem às necessidades dos cidadãos ao invés de entregá-los aos interesses empresariais. Processos decisórios abertos, participação e controle social, prestação de contas, separação entre governo e interesses privados, punição para as práticas de corrupção, prioridade para as demandas coletivas, atenção de qualidade e respeito dos direitos cidadãos, pelos serviços públicos e pela polícia; essa foi a voz do povo levantada em todo o país.

A desconfiança em relação às instituições públicas e privadas ficou patente, e, por trás das reivindicações de direitos denegados, a multidão exigia o aprofundamento da democracia, por meio de processos decisórios transparentes e participativos, nos quais as prioridades coletivas não fossem constantemente solapadas pelos interesses empresariais. Para isso, foi exigido dos governantes vir a público e, pela primeira vez, prestar contas de seus atos nos contratos para o transporte público.

Uma das questões que merece análise e reflexão foi a explosão de violência nas ações policiais, mostrando que a polícia militar ainda é uma herança da ditadura, voltada para a repressão da população e defesa do Estado. A truculência policial que é cotidianamente vivenciada nos bairros pobres das periferias e favelas transbordou esses limites, mostrando-se sem rebuços nas imagens que se espalharam pelo país. Por outro lado, assistiu-se a um fenômeno novo, que foi a presença de grupos de manifestantes que enfrentaram a polícia e destruíram bens públicos e privados em torno das manifestações, majoritariamente pacifistas.
Identificados genericamente como vândalos pela mídia, a composição desses grupos começa a ser investigada tanto pela polícia como pelos cientistas sociais. O termo vandalismo é definido no Dicionário do Aurélio como “Destruição daquilo que, por sua importância tradicional, pela antiguidade ou pela beleza, merece respeito”. Talvez aí encontremos a principal pista para desvendar o fenômeno inusitado em uma sociedade que se quer crer ser formada por homens e mulheres cordiais. Em outros termos, a crise de confiança que atravessa o conjunto das instituições permite que diferentes fatores e atores se responsabilizem pela erupção da violência entre os manifestantes.

Além da violência institucional cotidiana a que são submetidos os pobres na sua relação com os serviços públicos, as estatísticas sobre a violência mostram que os jovens negros e pardos são as principais vítimas e também são a quase totalidade da população carcerária. O fenômeno recente de aumento da violência nas regiões Norte e Nordeste, onde houve maior impacto positivo de redução da pobreza como resultado das políticas governamentais, demonstra que o descaso com as políticas universais de saúde, segurança e educação pode ser responsabilizado pela falta de coesão social que se manifesta em atos violentos.

A existência de grupos de jovens que se organizam através das redes sociais conclamando a violência, tais como torcidas organizadas ou grupos xenofóbicos que perseguem homossexuais e nordestinos, embora conhecida, nunca foi considerada uma ameaça social, dado o reduzido número de seus participantes. Alguns outros grupos marginais como milicianos e traficantes são mesmo tolerados e usados pelos políticos em suas campanhas eleitorais.

O que foi realmente novo foi o crescimento de adeptos da violência entre os jovens de classe média, movidos por ideologias anarquistas e de esquerda, congregados por meio das redes em torno táticas e indumentárias que identificam a estética dos Black Block. A rejeição do atual sistema capitalista, e das relações entre Estado e Mercado, pôde ser vista nos alvos preferenciais das suas ações contra bancos e prédios públicos.

A inusitada atuação simultânea de grupos tão distintos não indica, no entanto, uma articulação política entre eles. Revela, sim, a reação à violência policial contra a população, à sua atuação exclusiva na defesa do patrimônio estatal e dos governantes, a insurgência ante o descaso governamental com as demandas sociais, a rejeição de uma democracia limitada pela corrupção e patrimonialismo. Embora essas tenham sido as bandeiras gerais que mobilizaram mais de um milhão e meio de indivíduos em manifestações pacíficas, não resta dúvidas que o descrédito das instituições e a ausência de bases de legitimação do poder são o caldo de cultura para emergência da violência. Mesmo que isto não configure um movimento coerente ou bases sociais consistentes tais demonstrações de violência geram um clima de insegurança entre a população e demonstram a fragilidade da democracia no país. Por outro lado, ao tornar-se o centro principal da atenção da mídia, desvia a atenção dos problemas sociais centrais que mobilizaram as manifestações e reforçam a estratégia de militarização do social que já estava em curso, em especial nas favelas. O fato da polícia ter realizado uma chacina na Favela da Maré, com um saldo de nove mortos já foi esquecido pela mídia que deplora as lojas e bancos quebrados durante as manifestações no rico bairro do Leblon.

A tensão entre o aprofundamento da democracia proposto nas manifestações e a radicalização das ações de violência que desestabilizam a democracia mostra que são caminhos distintos, porém se encontraram nessa conjuntura, de forma algumas vezes sinérgica, outras vezes contraditória. Não nos resta, no entanto, outra saída que não seja a radicalização da democracia, com a socialização dos instrumentos de poder, da riqueza e da própria segurança.

Sonia Fleury é Doutora em Ciência Política, professora da EBAPE/FGV onde coordena o Programa de Estudos da Esfera Pública (PEEP)

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